Vazante incendeia polêmica racial no Festival de Brasília

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Alimentada pelas brasas da exclusão racial, uma fogueira ética arde no coração do 50º Festival de Brasília a reboque da exibição de Vazante, de Daniela Thomas, na disputa pelo prêmio de melhor filme do evento. Elogiado em sua passagem pela Berlinale, no início do ano, sobretudo pelo vigor em preto e branco da fotografia de Inti Briones, o primeiro longa-metragem solo da codiretora de Terra Estrangeira (1995) e Linha de Passe (2008) – ambos com Walter Salles – rachou opiniões e elevou a tensão entre os espectadores.

Atores, críticos e professores negros saíram incomodados da projeção, por rejeitarem o olhar da diretora para a escravidão no Brasil do ciclo da mineração, no século XIX. Uma acusação de whitewashing (na dramaturgia) incendiou ânimos no debate da cineasta com o público. Todos se arrebatam pelo trabalho de Inti e pela atuação de Fabrício Boliveira como uma espécie de capitão do mato (um feitor negro). Mas muitos se irritaram com as representações apresentadas por Daniela.

“Este filme não foi feito com a justa medida da questão de cor, nem com o desejo de ser um filme definitivo sobre o tema”, disse a cineasta, bombardeada por perguntas de tom agressivo – até debochados – sem poder dissecar as múltiplas virtudes narrativas de Vazante.

É cruel a realidade rural que Daniela flagra na relação entre senhores de escravos e os escravizados. Mas essa crueza se estende para a discussão que a diretora gera sobre machismo institucionalizado, ao expor a união forçada entre uma adolescente (Luana Nastas) e um fazendeiro quarentão, vivido pelo ator português Adriano Carvalho. Ele trata sua jovem (e põe jovem nisso) mulher como sua propriedade. Mas quando ela engravida, ele pode ter surpresas. “Que bom ver este filme chegar num momento em que estamos com o dedo sobre as feridas raciais”, diz Boliveira.

Antes de Vazante, o festival recebeu uma overdose sensorial aplicada em seus nervos óticos por uma produção do Rio Grande do Sul equilibrada entre os documentário e a ficção: Música Para Quando as Luzes se Apagam. Houve gente enfeitiçada pela lúdica construção narrativa apresentada pelo diretor estreante Ismael Caneppele a partir de uma mistura de textura e de um esboço de enredo centrado no processo transgênero da menina Emelyn Fischer em seu trânsito para se tornar Bernardo. Mas também teve gente completamente confusa diante do experimento do cineasta, que usa a atriz Julia Lemmertz como uma espécie de alter ego, ao fazer dela uma espécie de confidente de Emelyn. O desempenho caloroso de Julia, na composição de uma figura transcendente, e a fotografia de Pedro Gossler foram as únicas unanimidades do filme.

“Escrevi essa história há uns dez anos quando ganhei de uma menina as sobras de seu diário, que sua mãe jogou no fogo depois de ler coisas sobre a vida da filha de que não gostou”, diz Caneppele. “Gosto de poder caminhar por lugares por onde não havia caminhado antes”.

Entre os curtas, a produção mineira Nada – exibida e aclamada pela crítica europeia em sua passagem pelo Festival de Cannes, em maio – arrancou gargalhadas e reflexões sobre os rumos da juventude ao assumir como personagem uma jovem que se recusa a prestar o Enem. A direção é de Gabriel Martins, que alterna o uso de intérpretes amadores com atrizes do naipe de Karine Teles, de Que Horas Ela Volta.

Neste domingo, Brasília confere o longa brasileiro que saiu laureado com o Prêmio da Crítica no Festival de Berlim, em fevereiro: Pendular, de Julia Murat. Prevista para estrear no próximo dia 21, a produção narra a relação entre um artista plástico e uma dançarina em um galpão abandonado. Ainda esta noite, a cidade confere uma reprise de gala um dos maiores cults de seu histórico de 50 anos de competição: A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965), com Leonardo Villar. A briga pelos Candangos termina no dia 24.

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