O Nó do Diabo: horror para falar sobre escravidão

Jornal de Brasília

Filme de terror com fundo político, O Nó do Diabo aborda os horrores da escravidão. Na telona do Cine Brasília (106/107 Sul), hoje à noite, são mostrados cinco contos de horror ambientados em uma fazenda canavieira há mais de 200 anos, no Brasil colonial. A produção é assinada coletivamente pelos paraibanos Ramon Porto Mota, Ian Abé e Jhesus Tribuzi, além do mineiro Gabriel Martins, e tem sua estreia nacional no quinto dia de Mostra Competitiva da 50ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a partir das 21h.

Guiado pelo discurso do músico americano Iggy Pop, Ramon Porto espera que O Nó do Diabo cause euforia no público. “Certa vez, falando sobre quais efeitos o disco do Stooges deveria ter nas pessoas, Iggy Pop disse que gostaria que sua música agarrasse os ouvintes pelas orelhas e esmagasse a cabeça deles e delas na parede quando saísse do auto-falante. Acho que a expectativa é essa”, brinca o cineasta. Sem adiantar o desenvolvimento da trama, Ramon provoca: “É um filme de horror sobre o Brasil, dá para imaginar quantos desdobramentos tem?”

“A vontade era fazer um filme de horror que fosse na jugular do nosso País, que falasse diretamente desse saque que vivemos há mais de 500 anos pelos homens brancos e velhos que dão as cartas por aqui”, explica.
O roteiro foi produzido pelos quatro em parceria com o também diretor Anacã Agra. “Fizemos uma sala de roteiro no fim de 2015. Nos reunimos e discutimos cada detalhe da história. Em seguida, dividimos e escrevemos o roteiro de cada parte do filme”, detalha Porto Mota.

Com influências de Dário Argento, Mário Bava, Lucio Fulci, George Romero, Tobe Hooper, Wes Craven, John Carpenter, Kyioshi Kurosawa, José Mojica Marins e “mais uma monte de gente”, a filmagem de O Nó Do Diabo foi feita por meio de muito empenho. “Como todo filme independente rodado no interior da Paraíba, as filmagens foram feitas com muito esforço, perrengue, pouca grana e dor de cabeça. Mas também com muita dedicação”. Enfrentando o desafio do baixo financiamento, os diretores desenvolveram o longa com R$ 650 mil do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), além de dinheiro do próprio bolso.

Cheio de mistério e suspense, assim como a obra produzida pelo quarteto, Ramon encoraja o público a assistir ao filme e refletir sobre o passado cruel que permanece marcado nas paredes da fazenda, mesmo que ninguém o perceba. “Listar diretamente as críticas perde a graça. Acredito que o filme tem que ser a conversa. É melhor o filme falar por si”, resume.

Àqueles que desconhecem produções de terror tupiniquins, ele dá o recado: “Tem gente fazendo horror pelo Brasil inteiro, no Espírito Santo, Paraíba, Rio Grande do Sul, Maranhão etc. Mas esse cinema de horror brasileiro ainda não é lá essas coisas, não tem sua marca tão clara para um grande público ou grande mídia”.

Apesar das condições precárias de financiamento para esse tipo de filme, o cineasta não perde as esperanças. “Tenho grandes expectativas. Basta ver os exemplos de As Boas Maneiras, Animal Cordial e Nosso Mal. Três filmes de horror nacionais recentes que foram lançados em festivais internacionais nos últimos dois meses. Alguma coisa tem aí”, finaliza Ramon.

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