Mix de temáticas, lentes e relações marca 2º debate com filmes da mostra competitiva do Festival de Brasília

O 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro abriu espaço para debate entre produtores, elenco e o público dos filmes apresentados na mostra competitiva neste sábado (16). Na 1ª rodada da manhã, em que estavam presentes diretores e representantes dos filmes: “Nada”, “O Peixe” e do longa “Música para quando as luzes se apagam”, foi apontada a celebração do corpo, abordado em dois dos filmes apresentados, e seguiu com a diversidade de formatos e estética.

 

Marcelo Miranda moderou a conversa, iniciada com questionamentos por parte da plateia sobre o “novíssimo cinema mineiro”. Sobre a tendência, Gabriel Martins, diretor de “Nada”, destacou a proposta de pensar conflitos centrais, como aquele proposto pela trama – que traz a protagonista Bia, que completa a maioridade e lida com a pressão com a proximidade do Enem. Diretor, roteirista e câmera, Martins assina filmes premiados e que foram exibidos em diversos festivais no Brasil e no exterior, como “Contagem”, “Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides”, “Meu amigo mineiro” e “Rapsódia para o Homem Negro”.

 

Já o processo de produção do filme “Música para quando as luzes se apagam”, que durou 13 meses de filmagens e totalizou mais de 300 horas de trabalho, foi descrito por Ismael Caneppele, que estreou na direção já no Festival de Brasília. A obra narra a chegada de uma cineasta, interpretada pela atriz Julia Lemmertz, a uma pequena vila no sul do Brasil na tentativa de documentar a vida de um garoto trans adolescente. O documentário revela relação intermediada constantemente por lentes de cinema.

 

“A equipe mergulhou na minha ideia e fomos viver o cotidiano da Emelyn, todos com câmera na mão”, afirmou Ismael. Em seguida, a atriz Julia Lemmertz, presente no debate, falou sobre a relação de confiança criada com a experiência: “Aprofundei minha relação humana com a equipe e com os personagens. Esse filme não tem limites, você embarca e vive ele”. Também foi abordado o trabalho de consciência corporal realizado com o elenco do filme. 

 

A ideia de registrar o ritual de um grupo de pescadores que abraçam os pescados após a pesca e o amplo trabalho de pesquisa até gravar “Peixe” (2016, 23min, PE, Livre), foi debatida pelo diretor Jonathas de Andrade. O filme, que apresenta os personagens em formato de ciclos, tem como premissa a relação orgânica entre pescadores e peixes, além do dia a dia daqueles trabalhadores e comunidades.

 

“Meu objetivo foi retratar o gesto afetuoso que acompanha a passagem para a morte atesta uma relação entre espécies pautada em força, violência e dominação”, explicou Andrade sobre este curta, que é misto de documentário e ficção. Em 2017, “O Peixe” participou do Sheffield International Documentary Festival, do Moscow Experimental Film Festival e do Curtas Vila Do Conde – Festival Internacional de Cinema, onde foi eleito melhor documentário.

 

Democracia racial

Já na 2ª rodada do debate, moderado por Maria do Rosário, participaram os representantes dos filmes “Vazante” e “Peripatético”. A conversa, que teve lotação, atraiu ampla participação do público nas críticas direcionadas à desigualdade de pele e na dificuldade do protagonismo negro. O fomento à indústria do cinema foi apontado como necessidade, em especial nos projetos com a temática das “cores”.

 

Jéssica Queiroz apresentou seu filme “Peripatético” (2017, 15 min, SP, Livre), que narra um período da vida de Simone, Thiana e Michel, jovens moradores da periferia de São Paulo. Em meio às demandas do início da fase adulta, um acontecimento histórico em maio de 2006 na cidade de São Paulo muda o rumo de suas vidas.

 

Peripatético traz esse contraste entre o lúdico e a realidade, na busca de equilibro na narrativa sempre com uma pitada de animação”, explicou Jéssica, que dividiu com a plateia a história de ajuda que recebeu da família com o catering para produção e elenco. A cineasta completou o conceito de que metáforas e a cultura pop compõem o repertório de ‘Peri’.

 

A diretora, cenógrafa e roteirista do longa “Vazante” (2017, 116 min, SP, 14 anos), produção que retrata Minas Gerais no século XIX, Daniela Thomas, foi a figura mais questionada no debate desta manhã (17). A questão racial foi o foco das discussões, uma vez que o filme traz à tona as relações entre brancos e negros.

 

Daniela contou como começou o projeto, que tinha guardado na gaveta há 20 anos: “Esse filme foi escrito do ponto de vista de quem senta na minha cadeira. As pessoas precisam entender que existe um filme de dentro pra fora, de uma menina branca que revisita seu passado, com um senhor de todas as mulheres. O outro vazante é colocado no momento histórico em que estamos vivendo. Então o filme não me pertence mais. Ele vai ser rechaçado, amado, criticado de acordo com o seu tempo”. 

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