Filme ‘Arábia’ mostra força da vida pacata no 50º Festival de Cinema de Brasília

G1 DF

A vida pacata de um jovem operário de siderúrgica no interior de Minas Gerais ganha a nobreza das grandes telas de cinema com o longa-metragem “Arábia”, dos diretores e roteiristas João Dumans e Affonso Uchoa. O filme será exibido pela primeira vez no Brasil neste sábado (23) no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

A sessão começa às 21h no Cine Brasília, na 106/107 Sul, e a meia-entrada custa R$ 6. O filme será reprisado no domingo em uma exibição gratuita no Museu da República às 15h. Confira a programação completa do festival.

A história é contada a partir das perspectivas de dois personagens cujas trajetórias se cruzam por acaso. A película acompanha, em retrospectiva, os passos do jovem Cristiano (Aristides de Souza), morador da periferia de Contagem que se muda para a Vila Operária em Ouro Preto para trabalhar em uma siderúrgica e acaba se envolvendo em um acidente de trabalho.

O segundo ângulo é de um garoto da mesma cidade que encontra um caderno de anotações de Cristiano – uma espécie de diário onde deixou relatos de dez anos de vida, desilusões, desencontros, paixões e andanças. O ponto de encontro entre as duas histórias é este caderno, que sustenta a narrativa do filme.

Na medida em que os rastros de tinta narram a trajetória de Cristiano até chegar ao garoto, o filme conduz os espectadores a uma percepção mais íntima da condição do trabalhador sob uma perspectiva de “flashback”.

Nas folhas riscadas, pedaços de histórias que nunca se conectaram. Vidas que cruzaram o caminho e ficaram para trás. Laços desfeitos. Promessas que nunca puderam ser cumpridas. Trajetos que não seriam mais percorridos. Cristiano, uma espécie nômade de trabalhador nômade, coleciona pílulas de projetos de vida de cidade em cidade.

“Arábia” é um filme sobre a “grandeza da vida comum”, disse Uchoa ao G1. “Encontramos uma maneira de mostrar a força e o poder que têm a vida de pessoas como Cristiano.”

O todo por um

Ainda que possa representar a realidade de milhares de trabalhadores brasileiros que passam por circunstâncias semelhantes às do personagem em busca de melhores condições de vida, o longa não tem a pretensão de abarcar essa coletividade, segundo Dumans. A intenção é evidenciar a potência e a beleza que tem a vida de um trabalhador comum – invisível aos olhos do Estado e do mercado.

“É mais uma história sobre solidão que sobre a coletividade.”

Por este aspecto, os diretores afirmam que “Arábia” é um filme “totalmente político”, mas da perspectiva individual, da política enquanto essência. “Não é a política do convencimento, do panfletarismo. Conta a trajetória de um trabalhador que experimenta um raro momento de reflexão sobre si mesmo”, explicou Uchoa.

Produzido e gravado entre 2014 e 2016 – este último, ano do impeachment da ex-presidente Dilma – o filme acabou sendo impactado pelas mudanças impostas ao país desde então. Por isso (e pela temática escolhida), o longa consegue dialogar com o atual momento político brasileiro sem que essa seja a prioridade.

“O filme se relaciona de forma indireta com o impeachment e com a CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] sem falar sobre isso”, continuou Uchoa. “Fala sobre a sujeição da política e da vida social aos interesses de mercado, que leva a uma segregação e cria um estado de exceção na consciência da força coletiva.”

Cena do filme 'Arábia', de João Dumans e Affonso Uchoa, que está na mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Foto: Vasto Mundo e Katasia Filmes/Divulgação)Cena do filme 'Arábia', de João Dumans e Affonso Uchoa, que está na mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Foto: Vasto Mundo e Katasia Filmes/Divulgação)

Cena do filme ‘Arábia’, de João Dumans e Affonso Uchoa, que está na mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Foto: Vasto Mundo e Katasia Filmes/Divulgação)

“O filme se passa no meio rural e vai ser exibido em Brasília. Uma discrepância que se vê entre o que o governo faz e o que está em jogo nesses lugares”, acrescentou Dumans. “Os maiores conflitos e opressões estão nas lutas ligadas às ocupações urbanas e aos grandes empreendimentos no interior do país, como as fábricas e mineradoras.”

Neste sentido, o isolamento do personagem Cristiano acaba servindo de exemplo para o “escanteamento” da mão-de-obra de carne e osso dentro da política econômica neoliberal, que instituiu o “estado de solidão do trabalhador” a partir dos anos 1980, segundo os diretores.

Estética particular

Esteticamente o filme tem nuances intimistas ao acompanhar o relato em primeira pessoa dos detalhes da vida de Cristiano, mas “Arábia” foge do que os diretores entendem por “modelo clássico brasileiro de realismo social”, a exemplo dos filmes de Walter Salles e Fernando Meirelles.

“O realismo social é nosso anti-modelo em relação à forma.”

Para eles, este tipo de narrativa estética é uma forma “um tanto perversa” de lidar com a realidade brasileira. “Adotar esse modelo, ao nosso ver pacificado, não é uma solução cinematográfica”, explicou Dumans.

A forma adotada pelos diretores para contar a vida do trabalhador comum de uma siderúrgica no interior do país foi mostrar a realidade como ela, sob um olhar verdadeiro capaz de revelar a força e a grandeza daquela existência sem truques de imagem – um filme “épico intimista”, segundo Uchoa.

Cena do filme 'Arábia', de João Dumans e Affonso Uchoa, que está na mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Foto: Vasto Mundo e Katasia Filmes/Divulgação)Cena do filme 'Arábia', de João Dumans e Affonso Uchoa, que está na mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Foto: Vasto Mundo e Katasia Filmes/Divulgação)

Cena do filme ‘Arábia’, de João Dumans e Affonso Uchoa, que está na mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Foto: Vasto Mundo e Katasia Filmes/Divulgação)

Cinema brasileiro é o melhor

Para Affonso Uchoa, o cinema brasileiro é “uma das melhores cinematografias do mundo”, apesar de os nossos diretores não serem tão reverenciados no exterior o quanto merecem, segundo ele.

Além disso, as transformações digitais, que desde os anos 2000 vem inserindo novas tecnologias e possibilidades de filmagem e edição, têm impulsionado a produção audiovisual brasileira tanto em números, quanto em variedade.

“A diversidade e volume de produção maiores têm gerado novas possibilidades de jogar com o imaginário, de atrair públicos e abrir outras janelas de exibição”, disse o diretor.

Este contexto tecnológico também tem tirado do cinem a condição de privilégio de quem tem dinheiro. “Passa a ser feito por quem antes não conseguia. Hoje vemos gente de periferia, negros e negras, mulheres fazendo cinema.”

“É uma promessa de que, em breve, vai ter produção lançando outros pontos de vista sobre a mesma realidade.”

Do ponto de vista de Dumans, o circuito brasileiro de cinema “ainda fala muito pra si mesmo”, com narrativas, histórias e temáticas sobre a própria realidade. Para o cineasta, o grande desafio da produção audiovisual é conseguir expandir este alcance sem ceder às fórmulas do cinema comercial.

“É continuar fazendo o que faz, com essa pluralidade de filmes sobre diversas realidades, mas pensando em formas de expandir.”

Segundo ele, muitos cineastas – os dois incluídos nesta – têm conseguido trabalhar de uma maneira diferente, que experimenta novas abordagens e consegue dialogar com um público mais amplo. Talvez por isso, “Arábia” tenha ido parar no Festival de Roterdã, na Holanda, em janeiro deste ano para competir com outros sete filmes do mundo inteiro.

50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Quando: De 15 a 24 de setembro

Locais: Cine Brasília (106/107 Sul), Museu da República (Setor Cultural Sul, lote 2), Meliá Brasil 21 (SHS Quadra 6), Teatro da Praça de Taguatinga (St. Central AE 5, próximo à Praça do Relógio), Espaço Semente (Setor Central do Gama, Entrequadras 52/54), Teatro de Sobradinho (Área Especial, Q 12, próximo à rodoviária) e administração regional do Riacho Fundo (Área Central 3, Lote 6).

Preços: R$ 6 (meia-entrada para a Mostra Competitiva, no Cine Brasília); entrada franca para as outras exibições. Algumas atividades requerem inscrição prévia pela web.

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