Ficção na capital federal e realidade do cinema do sertão do Piauí

Penúltimo debate do Festival de Brasília aborda referências cinematográficas

 

As diversas referências dos diretores e produtores que exibiram ontem seus filmes na Mostra Competitiva prevaleceram no debate do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro deste sábado (23). Mediada por Luiz Joaquim, a conversa contou com sala cheia e críticos do cinema interessados nas histórias que deram origem às produções do longa-metragem “Era uma vez Brasília” (Adirley Queirós) e dos curtas “Carneiro de ouro” (Dácia Ibiapina) e “Chico” (Marcos e Eduardo Carvalho).

 

Desde a sinopse do catálogo do Festival ao produto final apresentado, “Chico” foi bastante elogiado pelos críticos e presentes no debate. O filme é ambientado em 2029, 13 anos após um golpe de estado no Brasil, em que é aprovada a lei de ressocialização preventiva, que autoriza a prisão de crianças negras e pobres. “Quando a gente olha pra narrativa e estética de um novo filme, buscamos certa distância das referências que já temos. Esse exercício nos levou ao formato de câmera que apresentamos no filme”, explicou Marcos Carvalho.

 

A força da atriz e rapper Jac Brown foi outro ponto mencionado. Também chamou atenção a história dos roteiristas, diretores e produtores, os irmãos gêmeos Marcos e Eduardo Carvalho, que se formaram em Cinema na PUC com bolsa de estudos e residem no Morro do Salgueiro (RJ). A dupla relatou, durante o debate, que busca abordar a vida negra nas favelas no contexto de políticas públicas de despejos e violência policial. Dentre suas obras estão Boa noite, Charles (2015) e Alegoria da Terra (2015). Pelo curta “Chico” receberam o Troféu Margarida de Prata 2017.

 

Já Dedé Rodrigues, realizador que produz com poucos recursos no sertão do Piauí, cuja vida é documentada em “Carneiro de ouro” (DF), foi o personagem mais comentado durante o debate. A diretora Dácia Ibiapina contou que fez esse filme para ajudar a curar do luto da perda de um irmão: “Voltei para o Piauí depois desse grande abalo e fiquei impactada com a qualidade do material que encontrei. Então mergulhei na vida de Dedé Rodrigues”. Os filmes do cineasta atraem multidões, em especial, a trilogia “Cangaceiros Fora de Tempo”.

 

A professora de Audiovisual e pesquisadora da UnB destacou ainda os aprendizados com o filme: “Dedé me ensinou que não existem barreiras. Quem quer fazer cinema tem que ir lá e arregaçar a manga. Nós somos protagonistas das nossas produções”. Por sua vez, o montador Guile Martins, se disse encantado com a tranquilidade de Dedé nos sets: “É impressionante a leveza do Dedé nas gravações e na vida. Ele também não tem medo de repetir planos, foi isso que eu quis trazer: o encontro do Dedé com o cinema, da Dácia com o Dedé e do filme com o público”.

 

O aluguel de um galpão que era usado de dia e servia como set durante a noite, além da compra de uma van Towner que custou R$ 500 foram algumas das passagens lembradas por Adirley Queirós no processo de produção do longa-metragem “Era uma vez Brasília”. “A maior referência dessa e de todas as minhas produções é a vida. Vivemos de verdade o filme só saímos da nave o dia que a nave voou”, contou Adirley, emocionado. A direção de arte e o figurino foram elogiados por críticos.

 

O roteiro retrata 1959, quando o agente intergaláctico WA4 é lançado no espaço como sentença por fazer um loteamento ilegal. Porém, recebe uma missão: vir para a Terra e matar o presidente Juscelino Kubitschek no dia da inauguração de Brasília. Sua nave perde-se no tempo e aterrissa em 2016, em Ceilândia, cidade-satélite de capital brasileira. Essa é a versão contada por Marquim do Tropa, ator e abduzido. Só Andréia, a rainha do pós-guerra, poderá ajudá-lo a montar o exército para matar os monstros que habitam hoje o Congresso Nacional.

 

Sobre o momento político que o país passa e a escolha do gênero do filme, Adirley comentou: “A ficção científica tem o poder de deslocar a gente dessa dura realidade que vivemos. Esse é um dos nossos trunfos”. Por fim, o produtor fez questão de ressaltar a autoria dos profissionais envolvidos na produção, a quem ele deu autonomia para criar e inovar nos processos de filmagem, montagem e edição.

 

Adirley Queirós dirigiu e produziu curtas e longas-metragens e recebeu mais de 60 prêmios no Brasil e no exterior, incluindo os principais prêmios do Festival de Brasília: em 2005, com o curta Rap, o canto da Ceilândia, e em 2014, com o longa Branco sai, preto fica – premiado também em Mar del Plata (Argentina), Ficunam (México) e Viennale (Áustria). Era uma vez Brasília é seu terceiro longa-metragem e foi exibido no Festival de Locarno (Suíça), onde recebeu menção especial do júri.

 

Patrocínio

A 50ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro conta com os seguintes patrocinadores: NET, Claro, Petrobras, BRB, BNDES e Sabin.

 

Serviço

Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – 50ª edição

Quando: 15 a 24 de setembro de 2017

Programação completa: http://www.festivaldebrasilia.com.br/

Fotos: https://www.flickr.com/photos/152011896@N03/albums

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