Festival de Brasília | “Brasil que mostro é Império de homens que vivem nas sombras”, diz Felipe Bragança

Omelete

Adjetivos como “avassalador” e “desconcertante” definiram a aventura sob duas rodas com Cauã Reymond escolhida para abrir a 50ª edição do Festival de Brasília, na noite de sexta-feira (15): Não Devore Meu Coração, que passou por Sundance e Berlim, inaugurou sua estrada nacional pelo coração político do país. Foi uma recepção quente, ainda que nem toda a crítica tenha se rendido à estranheza impressa pelo diretor Felipe Bragança em sua travessia pelo Centro-Oeste do Brasil. É lá, na fronteira com o Paraguai, que se passa a trama: uma mistura de Meu Primeiro Amor com O Selvagem da Motocicleta, temperado a litros de catuaba. Numa reinvenção de seu arquétipo de galã, Cauã – já escalado para estrelar a nova série da Globo, Ilha de Ferro – vive o motociclista Fernando, também chamado de Dezembro. É o integrante mais explosivo de uma gangue na zona limítrofe entre terras paraguaias e brasileiras.

No enredo, baseado em contos de Joca Reiners Terron, o foco é o jovem de 13 anos João Joca Carlos (Eduardo Macedo), irmão de Fernando. O garoto é apaixonado por uma menina índia, por quem é capaz de tudo, sobretudo depois que encontra uma espada da Guerra do Paraguai. Bragança explica, no papo a seguir, o que existe de Joca e o que existe de toda a sua vasta cinefilia nas imagens que arrebataram o Distrito Federal na arrancada do mais politizado festival do país.

Omelete: Tem uma centelha de Howard Hawks, diretor de El Dorado (1967), na maneira como seu western místico olha seus personagens no olho, com humanismo. Que elementos históricos e referências audiovisuais estão presentes em Não Devore Meu Coração?

Felipe Bragança: Minha intuição, desde que li os contos de Joca Terron, que inspiraram o roteiro, era a de criar um fluxo de imagens que flutuasse entre a narrativa do filme de melodrama clássico e a atmosfera das fábulas mágicas de minhas reminiscências infantis – tudo isso atravessado por uma certa vivência pop, fragmentos do cinema de aventura dos anos 80 que me habitam. Vimos Hawks. Vimos Nicholas Ray. Vimos Walter Hill. Vimos Myiazaki. Vimos Goonies. Vimos E.T. Vimos a vanguarda tcheca dos anos 70. Tenho por hábito não me ater a referências diretas para cada filme. Gosto de atravessar todos os filmes que minha memória intuitiva me traz e me conectam con o universo que eu quero narrar ou visitar. Minha vontade de cinema sobrevive nesse atravessamento de coisas. E esse atravatravessamento de coisa é também a forma como a História está presente neste filme. A narrativa é uma tecitura de sonho atravessada por fragmentos muito concretos da história brasileira.

Omelete: De que maneira o conceito de “adaptação” transparece na maneira como seu roteiro dialoga com a prosa do escrito Joca Reiners Teron?

Felipe Bragança: Os contos de Joca indicam imagens, cheiros e sensações. Os contos de Joca trazem uma liberdade narrativa muito grande para escrever o roteiro porque eles mais indicam possibilidades de narrativas do que narram. E isso é um convite para criar, para entrar naquele imaginário e se ficar a vontade para escrever. Misturei especialmente dois contos de um livro de muitos contos. E sinto que poderia voltar a eles no futuro. Aquilo ali não se esgota em um longa-metragem.

Omelete: Que ator você encontrou no Cauã na preparação das filmagens e que ator saiu da alma dele depois de o filme concluído?

Felipe Bragança: Cauã é um ator muito metódico, muito focado, muito estudioso no que está se propondo a viver. Deixando uma carga de eletricidade e alma imprevisível para a hora da filmagem. Este jeito dele lidar com o mundo se encaixou muito bem na forma como costumo trabalhar com meus atores e não-atores. Foram muitos e muitos ensaios, procurando o ritmo de cada cena, como partituras claras onde seria possível depois se aventurar no set. Cauã se entregou completamente a esse processo, a esse nível de concentração e invenção dessa coreografia cinematográfica onde ele poderia deixar explodir a raiva, a confusão e os medos de seu personagem, de seu Fernando.

Omelete: Primeiro, Sundance, depois, Berlim… Há uma travessia mundial com essa história de amadurecimento, que chega agora à abertura de Brasília, em sua 50ª edição. Que Brasil é esse que você anda retratando por aí?

Felipe Bragança: É um país duro e violento, mas atravessado de poesia e gente corajosa. Violento e ainda construído sobre os alicerces de um patriarcado e de uma oligarquia que ainda dita quase tudo que por aqui acontece. Basano e Joca, os dois jovens amantes do filme, de alguma forma desafiam esse status quo. Ela desafia a ordem pela coragem e pela memória de seu corpo. Ele desafia pelo amor louco que sente no coração juvenil. O Brasil que eu retrato é esse: esse Império controlado por homens que vivem nas sombras, mas que está cheio de heróis e heroínas resistentes e poeticamente desajustados a surgir nas brechas mais inesperadas e incomodar esse monolito do imaginário a que chamamos realidade.

Neste sábado começam as projeções competitivas de Brasília, com filmes aclamados em Roterdã, Berlim e Locarno. Eis a lista integral de concorrentes aos Candangos:

Mostra competitiva de longa-metragem:

  • ARÁBIA, de Affonso Uchoa e João Dumans, MG
  • CAFÉ COM CANELA, de Ary Rosa e Glenda Nicácio, BA
  • CONSTRUINDO PONTES, de Heloisa Passos, PR
  • ERA UMA VEZ BRASÍLIA, de Adirley Queirós, DF
  • MÚSICA PARA QUANDO AS LUZES SE APAGAM, de Ismael Cannepele, RS
  • O NÓ DO DIABO, de Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé, Jhesus Tribuzi , PB
  • PENDULAR, de Julia Murat, RJ
  • POR TRÁS DA LINHA DE ESCUDOS, de Marcelo Pedroso, PE
  • VAZANTE, de Daniela Thomas, SP

Mostra competitiva de curta-metragem:

  • A PASSAGEM DO COMETA, Juliana Rojas, SP
  • AS MELHORES NOITES DE VERONI, Ulisses Arthur, AL
  • BAUNILHA, Leo Tabosa, PE
  • CARNEIRO DE OURO, Dácia Ibiapina, DF
  • CHICO, Irmãos Carvalho, RJ
  • INOCENTES, Douglas Soares, RJ
  • MAMATA, Marcus Curvelo , BA
  • NADA, Gabriel Martins , MG
  • O PEIXE, Jonathas de Andrade, PE
  • PERIPATÉTICO, Jessica Queiroz, SP
  • TENTEI, Laís Melo, PR
  • TORRE, Nadia Mangolini, SP

No fim de semana de abertura do festival, Nelson Pereira dos Santos, o decano do cinema moderno do país, vai ganhar um tributo lá, numa homenagem a uma obra que nos deu Vidas Secas (1963) e O Amuleto de Ogum (1974), entre outros míticos exercícios de direção.

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