Em sua 50ª edição, Festival de Brasília anuncia vencedores neste domingo

O Globo

RIO – O alerta partiu de Daniela Thomas: “É preciso ter cuidado com a ideia de que algumas dores valem mais do que outras”. O desabafo da diretora carioca aconteceu durante o tenso debate sobre “Vazante”, um dos títulos da competição do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, cujos vencedores serão conhecidos hoje. Ambientado no interior das Minas Gerais do século XIX, auge da escravidão, o filme foi duramente questionado pela suposta superficialidade com que retrata seus personagens negros.

A acalorada e, às vezes, agressiva reação à trama de “Vazante”, centrada no casamento entre um fazendeiro branco e uma menina de 12 anos, deu o tom das discussões sobre a seleção deste ano. Esta, oportunamente, abraça grandes questões que incendeiam o momento brasileiro, como racismo, identidade de gênero, classe social e ideologia política. Faltou, no entanto, combinar com a plateia: o que se viu ao longo da semana foi a polarização de opiniões, em que prevaleceram queixas sobre a representação de certos segmentos da sociedade, em detrimento dos méritos ou problemas da obra.

Mesmo filmes que tentaram refletir sobre o clima de Fla-Flu que tomou conta do país nos últimos anos e colocaram famílias e “amigos” de redes sociais em lados opostos, como “Construindo pontes”, de Heloisa Passos, saíram chamuscados. No documentário, a diretora registra uma tentativa de reconciliação ideológica com o pai, um engenheiro quase octogenário, que viveu o auge profissional durante a ditadura. Ele, que até hoje se refere ao governo militar como “revolução”, revela-se uma figura tranquila e “perigosamente” carismática.

— Vejo o “Construindo pontes” como um exercício do diálogo com alguém que pensa diferente de mim. É um filme sobre a dificuldade de entender o outro, nesses tempos tão polarizados, que nos faz negar a existência do outro — resumiu Heloisa, diretora de fotografia paranaense, de títulos como “Amor” (2011), de João Jardim, e “O que se move” (2012), de Caetano Gotardo, que aqui estreia na realização de longas-metragens.

Ao comentar o perfil da disputa pelos prêmios Candango deste ano, o diretor artístico e curador do festival, Eduardo Valente, explicou que dois tipos de filme dominavam o conjunto: os que exploram “o conflito ou a oposição em relação ao outro”, e os que apontavam uma “busca pela identidade, seja ela de gênero, de raça, ou política”. O segredo de uma boa seleção para um festival com 50 anos de tradição na contribuição para o pensamento político e cinematográfico era, segundo ele, o “equilíbrio, a delicadeza no tom da abordagem, sem ser panfletário”.

Ausências de confrontos ou minorias, no entanto, foram imediatamente identificados como “filmes sobre problemas de branco”, como sugerido num dos debates, em alusão a concorrentes como “Pendular”, de Julia Murat, sobre a relação afetiva, profissional e espacial entre uma bailarina e um escultor, e até mesmo a “Construindo pontes”. Críticas raivosas foram disparadas ao pernambucano Marcelo Pedroso, autor de “Por trás da linha de escudos”, tentativa de filmar as entranhas do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pernambuco, responsável pela repressão a distúrbios civis.

— Queria entender a dinâmica social em que aqueles agentes estão inseridos, e oferecer elementos para uma transformação — defendeu-se Pedroso, vencedor dos Candangos de melhor direção, roteiro e som na edição de 2014 do Festival de Brasília com “Brasil S/A”, alegoria política sobre as contradições da modernização do país. — Minha intenção era realizar um ensaio de luta social também. “Por trás da linha de escudos” está alinhado com essa tentativa de buscar essa transformação da sociedade brasileira como um todo.

Houve quem sugerisse abertamente que não havia mais espaço no Brasil de hoje para filmes que não dessem conta da multiplicidade de vozes e demandas da sociedade brasileira atual. Foi dentro desse clima de reivindicação de terreno que aconteceu a estreia de “Era uma vez, Brasília”, aguardado longa do goiano (radicado no Distrito Federal) Adirley Queirós, autor de poderoso petardo “Branco sai, preto fica”, grande vencedor do Festival de Brasília de 2014.

O enredo é sobre um agente intergalático enviado à Terra para matar o presidente Juscelino Kubitschek no dia da inauguração de Brasília. Perde-se no meio do caminho e vem parar em 2016, em cenário apocalíptico, obscuro, assombrado por emissões de áudio da ex-presidente Dilma Rousseff e de seu sucessor Michel Temer. Vago em termos de ação e propósito, foi recebido com certa decepção por parte do público que o aguardava com ansiedade.

Já “Arábia”, dos mineiros Affonso Uchoa e João Dumans, é um retrato do operário brasileiro a partir da descoberta de um caderno de anotações de um funcionário de uma fábrica de alumínio por um morador da cidade de Ouro Preto.

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