Brasília 2017. O pós-apocalipse de ‘Era uma Vez Brasília’

Estadão

BRASÍLIA – As notícias da invasão da Rocinha pelas Forças Armadas deram sinistra atualidade à penúltima noite de competição do Festival de Brasília. Dois dos três filmes apresentados representam, na tela, esse país pós-apocalíptico que parece se desenhar após o golpe de 2016. Tanto o curta-metragem Chico, dos Irmãos Carvalho (RJ), como o longa Era uma Vez em Brasília, de Adirley Queirós (DF) debruçam-se sobre o tema.

A noite prometia ser especial. Nunca, nesta edição, o Cine Brasília esteve tão lotado quanto ontem. Havia muita gente sentada no chão e os lugares nos corredores eram disputados. A cidade esperava com ansiedade o novo filme de Adirley, morador da cidade-satélite Ceilândia e vencedor do festival em 2014 com o poderoso Branco Sai Preto Fica. É um criador original, identificado com seu chão de origem, crítico social sem meias palavras. Ou meias imagens.

A originalidade aparece já na proposta inicial, o trabalho com a ficção científica, pouco usual no Brasil por depender de efeitos especiais e altos orçamentos. Adirley se vira com o que tem. E, assim fazendo, inventa uma história que parece das mais mirabolantes. Preso em seu planeta por abrigar a família num loteamento ilegal o agente intergalático WA4 tenta o perdão assumindo uma missão perigosa: vir para a Terra matar o presidente Juscelino Kubitschek no dia da inauguração de Brasília, em 1960.

No entanto, ele se perde pelo espaço e só chega ao Planalto Central em 2016, quando se desenha e depois se concretiza o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

O cenário montado é uma espécie de Mad Max tupiniquim, com uma periferia devastada, escura, sem luz do sol, em que as pessoas sobrevivem de restos de coisas e alimentos e empregam seu tempo em lutas e conflitos entre si. Mais que uma visão futurista e pós-civilizatória, materializa  como o artista vê o contemporâneo, o caos nascido das lutas de grupos de interesse pelo poder.

A idéia é original, seu modo de materializar-se também, apostando na banda sonora como forma de reproduzir no espectador o incômodo da situação. Esses sons mesclam-se a imagens documentais de manifestações de rua e falas de políticos. No entanto, algo não funciona no conjunto. O impulso original acaba por esgotar-se e o longa se ressente de uma elaboração talvez mais apurada do roteiro. Não se vê por onde a história possa caminhar, e o tempo é empregado numa lenta repetição de situações.

O público, que lá estava para consagrar o longa, deve ter sentido os impasses da narrativa e aplaudiu, mas de modo um tanto protocolar, sem deixar de, depois, puxar um coro de “Fora, Temer”, como a ocasião pedia. Se não foi uma decepção, esteve perto disso, porque muito, talvez demasiado, se esperava deste Era uma Vez Brasília.

CurtasChico, a que me referi acima, também aposta no futurismo catastrófico. Em 2029, 13 anos após o golpe parlamentar, o Brasil se tornou um país em que crianças negras e pobres são obrigadas a portar tornozeleiras eletrônicas porque o Estado entende que, cedo ou tarde, cairão no mundo do crime. Chico é o garoto protagonista e, em seu aniversário, vê aprovada uma lei de ressocialização que permite a prisão de meninos em situação de risco – uma aspiração da direita brasileira que nada tem de ficcional. O curta é muito bom e o desfecho, sacrificial, o coloca lá em cima.

Nessa noite pesada e cheia de maus presságios, houve a apresentação de outro curta-metragem, Carneiro de Ouro, de Dácia Ibiapina (DF), que funcionou como respiro e alívio cômico. Mostra a atividade cinematográfica de Dedé Rodrigues que, no interior do Piauí, filma do jeito que pode e produz uma obra cheia de espontaneidade e grande apelo popular, como a trilogia Cangaceiros Fora do Tempo. O próprio Dedé é uma figuraça e encantou o cinema com a apresentação do curta em sua homenagem. Entra na galeria dos cineastas “naturais” brasileiros, como Simião Martiniano, descoberto anos atrás. Filme simples, sem qualquer firula, mas gostoso de ver.

Falando em curtas, quero aproveitar esse texto para recuperar outro filme que, na correria, acabou ficando para trás e é, no entanto, um dos melhores apresentados neste Festival de Brasília. Trata-se de Torre, de Nádia Mangolini, que, com depoimentos e técnicas de animação, reconstrói a trajetória do guerrilheiro urbano Virgílio Gomes da Silva, assassinado em 1969 no Doi-Codi. Virgílio era da ALN e participou do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Sua vida é recordada pelas palavras dos seus quatro filhos, desde o menor, que poucas lembranças tem do pai, até o mais velho, cujas recordações são mais claras. Ao invés de se acomodar às entrevistas e às famosas “cabeças falantes” dos depoimentos, Nádia ilustra as falas por desenhos animados bastante inspiradores e originais. É uma beleza de filme, que fala de outra época triste da história brasileira, essa sucessão contínua de truculências sob a capa enganosa do “homem cordial”.

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