Abertura do Festival de Brasília tem ‘fábula de guerra e amor’ na divisa Brasil-Paraguai

G1 DF

ma mistura de acasos e surpresas fez com que o longa-metragem “Não devore meu coração!”, do cineasta carioca Felipe Bragança, fosse escolhido para a cerimônia de abertura do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, nesta sexta-feira (15), para convidados. O diretor e roteirista nem chegou a enviar cópia para os organizadores, e diz ter ficado “surpreso e lisonjeado” com o convite.

Bragança conversou com o G1 por telefone, nesta quinta (14), enquanto se preparava para o último dia de filmagens da próxima empreitada – previsto para terminar às 2h de sexta, sete horas antes do embarque para Brasília. “Não devore” tem estreia comercial prevista para novembro mas, antes, deve cumprir mais algumas exibições em festivais.

“O Eduardo Valente [curador e diretor artístico do festival] tinha visto o filme em Berlim. Aí, me ligou e disse ‘olha, eu vi que você não inscreveu, mas se couber nas suas datas… E coube certinho, por muita coincidência. Se fosse um dia a mais, ou a menos, talvez eu não tivesse como ir”, conta Bragança.

O próprio roteiro do filme, diz ele, surgiu de forma parecida. “Comecei a pensar nesse filme 2011, 2012, quando li o livro do Joca [Reiners Terron, escritor cuiabano]. Um amigo me deu o livro, depois de ver o meu filme ‘A alegria’ em Cannes, e disse que tinha a ver com coisas que eu faço, que eu gosto”, conta.

O filme

Baseado em dois contos de Terron, o filme escolhido fala do amor de um garoto de 13 anos – também chamado Joca (Eduardo Macedo) – por Basano La Tatuada (Adelí Gonzales), uma jovem indígena paraguaia, na fronteira do Mato Grosso do Sul.

Ao longo dos 108 minutos de projeção, os resquícios históricos da Guerra do Paraguai, a relação complicada com o irmão – o motoqueiro rebelde Fernando (Cauã Reymond) –, e as disputas entre ruralistas e indígenas engrossam o conflito na tela. No livro, cada um dos irmãos pertence a contos diferentes.

“É um melodrama masculino que parte dessa relação entre dois irmãos, cada um com uma forma de organizar o mundo. Um menino que trabalha dentro de um universo mágico de amor louco, e um irmão que, de alguma forma, não acredita em mais nada”, diz o diretor.

“Não devore meu coração” marca a estreia de Felipe Bragança na direção solo de um longa-metragem. Antes, o cineasta dividiu a cadeira com a sócia Melina Meliande em filmes como “A fuga da mulher gorila”, de 2009, e “A alegria”, de 2010. A captura do conflito social na filmagem, segundo ele, marca uma ruptura em relação aos projetos anteriores.

Identidade guarani

Para contar essa história de fronteira, Bragança fez dezenas de viagens ao interior do Mato Grosso do Sul em busca de locações e elenco. À exceção de Cauã Reymond e da participação especial de Ney Matogrosso, a tela é dominada por não atores que moram naquela região.

“Temos muitos personagens de origem paraguaia, guarani, ou do interior, e eu sabia que só ia encontrar as pessoas lá. E foi o que aconteceu, 80% das pessoas são das cidades onde a gente filmou. E a paisagem humana é muito mais importante que a geográfica, não faria sentido filmar em outro lugar, no eixo Rio-São Paulo, em locações que fossem parecidas”, explica.

Questionado pelo G1 sobre a mensagem do filme, Bragança diz que as próprias escolhas de roteiro e filmagem levaram à adoção de “posturas políticas”. O filme não envereda pela militância didática e, por isso mesmo, na visão do cineasta, compõe um manifesto a favor da ficção.

“Acho que é uma posição política a gente fazer, na América Latina, um filme que não seja retrato de denúncia social. Existe uma coisa de que a gente é obrigado a expor as nossas mazelas. Eu quero mostrar o que essas mazelas geram nos afetos, nas emoções, nas pessoas.”

Os efeitos dessas mazelas ficam claros em um episódio presenciado por Felipe Bragança que não compõe o roteiro, mas foi citado na entrevista. Ao elaborar uma cena que reunia paraguaios e brasileiros, o diretor descobriu a existência de uma “identidade guarani” que, até então, vinha passando despercebida.

“Tem uma gangue de motoqueiros paraguaios no filme que reúne atores e não atores, brasileiros e paraguaios. Antes de filmar, eu chamei todos e perguntei se não teria problema, se eles ficavam desconfortáveis. Vai parecer que estou floreando, mas eu juro que eles disseram que ‘isso não existe, somos todos guaranis'”, conta.

O peso dos conflitos

Ao mesmo tempo, o filme traz à tona os conflitos entre indígenas e fazendeiros que remontam à Guerra do Paraguai e, ainda hoje, resultam em episódios de profunda violência. “O massacre indígena atravessou as últimas décadas. Muita coisa melhorou no país, mas isso não. O filme chama atenção para isso, porque acho que, talvez, piore ainda mais nesses próximos anos”.

O diretor de “Não devore meu coração” também diz ter se surpreendido, durante as filmagens, com a descoberta de heranças culturais dos indígenas que, nas palavras dele, teriam sido “naturalizadas” pela cultura urbana.

“A gente tem um problema muito grande, de não entender o quanto a cultura tupi-guarani está entranhada na nossa cultura. O mesmo aconteceu com a cultura negra, mas a gente vem resgatando ela nas últimas décadas. A indígena, a gente ainda encara como algo isolado e arcaico.”

A trajetória do filme

Antes de desembarcar em Brasília, “Não devore meu coração” foi exibido nos festivais de Sundance (EUA), Berlim e Toulousse (França), além de abrir a mostra de Cartagena de Índias (Colômbia). No início de outubro, o longa encerra o Festival Biarritz América Latina, na França.

A estreia em circuito comercial deve acontecer em 23 de novembro mas, até esta quinta, o número de salas ainda estava em aberto. Ao G1, Felipe Bragança relatou boas expectativas para o desempenho da película.

Locais: Cine Brasília (106/107 Sul), Museu da República (Setor Cultural Sul, lote 2), Meliá Brasil 21 (SHS Quadra 6), Teatro da Praça de Taguatinga (St. Central AE 5, próximo à Praça do Relógio), Espaço Semente (Setor Central do Gama, Entrequadras 52/54), Teatro de Sobradinho (Área Especial, Q 12, próximo à rodoviária) e administração regional do Riacho Fundo (Área Central 3, Lote 6).

Preços: R$ 6 (meia-entrada para a Mostra Competitiva, no Cine Brasília); entrada franca para as outras exibições. Algumas atividades requerem inscrição prévia pela web.

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