A arte de viver a vida em “Abaixo a Gravidade”

Metrópoles

O diretor baiano Edgard Navarro não se considera um cineasta no sentido mais pomposo da palavra. Mesmo assim, Navarro “cometeu” filmes que marcaram a cinematografia nacional como “Super Outro” (1989) e “Eu me Lembro”, sendo o último ganhador de sete Candangos no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.  Prêmios de melhor filme, direção, atriz (Arly Arnaud), ator coadjuvante (Fernando Neves), atriz coadjuvante (Valderez Freitas Teixeira) e roteiro no Festival de Brasília de 2005.

Em parte baseado na vida do amigo Luiz Paulino dos Santos (1932-2017), parceiro de Glauber Rocha nos primórdios do cinema novo, Navarro bebe de muitas fontes místicas para construir “Abaixo a Gravidade”, filme escolhido para encerrar o 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em exibição fora da competitiva, somente para convidados. O novo filme de Navarro relaciona Rodin e arte artesanal.  Deuses nórdicos com candomblé. Juventude com velhice.  Doenças do corpo e da alma e muita vontade de viver. é também o mais recente trabalho do ator Everaldo Pontes.

Li a sinopse de “Abaixo a Gravidade” e confesso que não entendi…

Navarro – (risos). Esse filme tenta contar a história de um homem que está ficando velho e está cercado de sintomas de doença, sediando um prenúncio de morte. Ele tem uma porção de vida muito forte, buscou morar fora da cidade grande num lugar isolado há cerca de 30 anos. É parte baseado na história real do meu amigo Luiz Paulino dos Santos, mas o filme não é biográfico. Achei que devia tem uma curva dramática e uma tensão no roteiro que me propus a fazer. Quando esse homem já está ambientado nesse lugar que escolheu para viver apaziguado aparece uma última tentação. Ele volta para Salvador e encontra uma cidade transformada num território de guerra, miséria e injustiça.

Seus filmes costumam apresentar camadas mais subjetivas dos personagens. Neste essa característica aparece também?

É preciso transcender essa coisa do racionalismo. Como estamos na Bahia as forças cósmicas se reúnem para ajudar esse homem e ele foi fazer um pacto com Exú. Este orixá é assimiliado pelos católicos como o diabo mas não é verdade. Ele faz a comunicação entre os orixás e os homens. É um Hermes, um Mercúrio, um Deus que faz essa ligação dos deuses com os mortais. Está no filme que o Exú tem uma coisa muito fálica. O Exú vai ser também um aparo para conseguir vencer a gravidade nessa peleja. Ele se insurge contra os efeitos da gravidade, essa força que leva tudo a cair. Não só vencer a gravidade do garanhão, mas também para sair do seu imobilismo para entrar numa dança cósmica. Isso acontece num sonho dele, mas um sonho é apenas um sonho.

O filme também é reflexo do momento da sua vida espelho?

Navarro – Algumas características do personagem são minhas. Tem uma cegueira que me aflige e uma labirintite. Fiz uma biopsia da próstata e tive de tomar um remédio que me deixou completamente brocha.

Você se sente incomodado por ser considerado um cineasta consagrado?

Navarro – É o último filme que faço com estrutura de produção grande, equipe grande. Daqui para frente farei apenas filmes artesanais. Eu nunca fui um cineasta. Sempre fui um filme “cinemeiro”. A palavra cineasta é muito pomposa e irritante. É preciso retirar a metidez e certa pernosticidade desta palavra. Eu não sou cineasta. Sou só um palhaço um homem tragicômico que ri de si mesmo. Temos de aprender a rir desses ritos cinematográficos. “Abaixo a Gravidade” é um rito que se insurge contra tudo isso.

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