50º Festival de Brasília debateu padrões limitadores da sociedade

Conversa livre colocou na mesa o apelo social do cinema, com questões de gênero, idade e a vivência trans

 

Como iniciativa da Mostra Corpos Indóceis, a conversa livre com mediação de Denilson Lopes reuniu personalidades do cinema nacional para abordar a marginalização do corpo e os atores da sociedade que se recusam a estar a serviço do sistema, reconhecido como “castrador e controlador”. O encontro, realizado nesta segunda-feira (18), fez parte da programação do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.


A atriz brasiliense Mariana Nunes iniciou sua participação apontando a importância, para o tema “Uma ética da diferença e da não conformidade”, de ouvir experiências das mulheres negras, normalmente pautadas por preconceitos e transgressões. “A impressão que eu tenho é que o nosso corpo pertence à sociedade e que a sociedade faz o que quer com ele. Mas espera aí, e o que eu quero?”.


Mesmo enquanto convidada para o bate-papo, ela própria questionou os colegas e presentes: “se existem os corpos indóceis, quem são os corpos dóceis?”. Em sua visão, existe a não aceitação quando esses corpos considerados indóceis ou fora de padrão se posicionam. “Não me considero alguém que trabalha por uma ideologia, mas quero igualdade social e racial, tenho buscado levar esse debate para os sets e para os lugares que frequento”, completou Mariana.


As câmeras do cinema foram caracterizadas pelo videomaker e designer Gilmar Galache como ferramenta de incentivo aos índios jovens para manter e multiplicar rituais, expressões e a linguagem do mundo indígena. “O saber é patrimônio de todos e o cinema tem papel preponderante na manutenção dos hábitos e cultura desse povo”, finalizou.


Ainda de acordo com Galache, é necessária muita sensibilidade para que o audiovisual consolide o seu potencial social. O convidado registrou ainda que nas aldeias indígenas a forma de distribuição dos vídeos é o compartilhamento de vídeos por meio de Bluetooth. “Em pensar que há pouco tempo nós éramos invisíveis e hoje somos alternativa para a manutenção do planeta que vivemos…”


Em seguida, a blogueira e rapper Rosa Luz descreveu sua transição como transsexual, em que a sociedade considera como um corpo marginalizado pelo sistema: “Hoje em dia eu parei de querer me validar no sistema, mas é impossível não sermos vistos de forma estereotipada. Uso a arte da palavra para divulgar o que eu penso e acredito. Se quiserem entender esse corpo, vão ter que aceitar o que ele tem a falar”.


Segundo a artista, que possui um canal chamado “Barraco da Rosa” no Youtube e que lançou vaquinha coletiva online para arrecadar fundos para a gravação de seu primeiro EP, o filme que protagoniza “Estamos todos aqui”, de Rafael Mellim e Chico Santos, não existiria se não fosse projetado por pessoas que também vivem em condições marginais. “Aos poucos os transexuais vão buscando seu lugar. O mais importante é a estratégia transformar a marginalidade em potência criativa”, finalizou Rosa Luz.

 

A baixa participação dos idosos na indústria cinematográfica foi o ponto central da apresentação do ator e diretor João Antônio de Lima Esteves, protagonista nas Artes Cênicas em Brasília. Ele contou a história do teatro na capital federal, com momentos altos e baixos num período marcado pela ditadura militar.


“Quando conseguimos começar a produzir mais e melhor, eu já era um ator idoso e  raramente esse tipo de personagem recebe o papel de protagonista. Felizmente acabei de fazer o curta Rosinha, sobre a história amorosa de três velhinhos. A visão do idoso no cinema é respeitada e não costuma levar a grandes polêmicas, a não ser quando estamos nus”, contou João, referindo-se ao filme, que está em exibição no Festival.


Também contribuiu com o debate o diretor artístico do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Eduardo Valente, com explicações referentes à curadoria do evento. “Na minha opinião todos os filmes são importantes, independentemente da mostra, do local ou horário em que são exibidos. Repito sempre que o Festival é um corpo inteiro e os filmes dialogam com o público, mas também entre si”, ressaltou Valente.  

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